O processo criativo enquanto travessia

Texto originalmente publicado na revista Recorte

“caminante, no hay camino
se hace camino al andar”

[Antonio Machado]

Eu gosto bastante de músicas compridas e repetitivas, embora algumas vezes elas possam ser um pouco irritantes (lembro quando estava com a Giulia em nosso estúdio e ela pediu pra mudar de música pois a que eu tinha colocado estava fazendo ela ter vontade de se jogar da janela do 8º andar). Em geral, uma dimensão que me agrada nessas músicas é que você não percebe muito bem o que aconteceu, ou como você chegou até ali. No 7º minuto, pode parecer que a música não sofreu mudança alguma, mas ao comparar esse momento com o seu início, ela pode estar completamente diferente.

O processo criativo, ou seja, as ações e caminhos que trilhamos para resolver algum problema, conectando assuntos e experiências passadas, requer esse período para nos acostumarmos com mudanças graduais, quase imperceptíveis, até que tudo esteja diferente. Nesse sentido, esse processo é também como uma longa caminhada, ou uma travessia.

Criatividade é a capacidade de dar origem a algo, muitas vezes conectando coisas que já existem para formular respostas a perguntas novas. Qualquer pessoa é potencialmente criativa, embora seja menor a parcela da população que trabalha na chamada economia criativa. Isso gera certa confusão, pois um médico, uma advogada ou um físico nuclear muitas vezes não são as primeiras pessoas que são lembradas quando pensamos em “profissões criativas”. Mas cada profissional, dessas e de praticamente todas as áreas do conhecimento humano, é confrontado com problemas cuja solução exige elaborar um enunciado, pesquisar possíveis soluções anteriores para situações similares, conectar isso a histórias ou vivências pessoais, formular hipóteses que serão testadas e validadas (ou não), para, enfim, chegar num resultado.

Além do cotidiano profissional, a criatividade também está presente em outras demandas do nosso dia a dia. Por exemplo, no preparo de um almoço: temos que decidir quais serão os ingredientes e comprá-los (ou olhar para o que temos em casa), pensar em formas de combiná-los, lavar os vegetais, picar os temperos, cozinhar os insumos numa determinada sequência, finalizar o preparo e, somente depois desse processo, comer aquela refeição. O uso cada vez mais recorrente de aplicativos de entrega de refeições sinaliza o quanto estamos terceirizando o ato criativo do preparo da refeição devido a demandas que consomem nosso tempo e não nos permitem dar vazão ao potencial de criação nessa e em outras situações. Nessas ocasiões, ao terceirizar a solução para o problema (o problema aqui é nossa necessidade de nos alimentar), acabamos deixando de passar pelo processo que nos permitiria criar uma refeição do início ao fim, satisfazendo não só nosso paladar, mas nosso ímpeto criativo.

Considerando a solução como o destino a se alcançar, gosto de pensar que o processo criativo é a travessia para se chegar nesse destino. Ambos — processo e travessia — geralmente revelam caminhos novos, estradas batidas, bifurcações, surpresas e lugarejos para fazer uma pausa e tomar uma água. Vale nos atentarmos para o fato de que atravessar é um verbo, logo uma ação que acontece em um período de tempo; por isso, a travessia — e o processo criativo — está sujeita a intempéries, obstáculos, imprevistos, cansaço e demais efeitos da ação do tempo sobre nosso corpo.

Em 2017 participei, junto a três amigos, de um evento ciclístico não competitivo chamado Audax. Consistia em pedalar, num único dia, duzentos quilômetros entre as cidades de Queluz e Bananal, na região paulista do Vale do Paraíba. Foram 13 horas pedalando debaixo de chuva, sol, vento, com subidas e descidas bem longas e íngremes durante todo o percurso. Aqui cabe um detalhe: a bicicleta que usei não tinha marchas. Até o quilômetro 100 estava correndo tudo bem, mas entre o 100º e o 150º km questionei tudo: o que eu estava fazendo ali? Qual era o sentido daquilo? Pra que eu estava fazendo tudo aquilo? Por que eu pedalo? De quais outras formas eu poderia aproveitar aquele sábado? O que significa viver? Na parada do quilômetro 150 eu estava preparado para desistir, mas recebi um último empurrão das pessoas que estavam comigo e consegui juntar forças para encarar os últimos cinquenta quilômetros e concluir aquela dura empreitada. Quando terminei a atividade, uma sensação de realização acometeu meu corpo numa intensidade que eu nunca tinha sentido antes. Eu havia, com meu corpo e minha mente, atravessado aquela experiência.

O escritor e maratonista japonês Haruki Murakami descreveu de forma precisa esse sentimento em seu livro “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, ao relatar uma corrida de 100 km de que participou:

“Enquanto eu aguentava tudo isso, perto do quilômetro setenta e cinco senti como se estivesse atravessando algo. Foi assim que me senti. Atravessando é o único modo que consigo expressar. Como se meu corpo tivesse passado incólume através de um muro de pedra. Em que exato momento senti que havia conseguido, não posso me lembrar, mas de repente notei que estava do outro lado. Não sei como é a lógica do processo ou o método envolvido — simplesmente fiquei convencido da realidade de que atravessara algo.”

Com relação ao Audax, não haveria a possibilidade de eu sentir cada poro, cada músculo, cada articulação do meu corpo reagindo àquela experiência, se eu não tivesse atravessado aquela experiência. E é uma sensação parecida com essa que surge quando chegamos ao resultado de um processo criativo para um projeto.

Eu trabalho com design gráfico e o nosso método de trabalho não foge muito do processo criativo tradicional: pesquisamos, levantamos hipóteses, experimentamos caminhos e chegamos a um resultado. Tudo começa com longas conversas com o cliente para entendermos as necessidades do projeto, e nesse momento nós perguntamos muito, mesmo a respeito de informações que poderíamos pressupor. Depois disso, partimos para pesquisas sobre diversos assuntos — em parte relacionados diretamente com o cliente ou o projeto, mas muitas vezes essa pesquisa nos conduz para caminhos completamente inesperados, em que um tema puxa outro e investigamos coisas que muitas vezes são descartadas na peneira que vem a seguir. Compartilhamos entre nós as pesquisas feitas individualmente, e nesse momento novas conexões surgem e possíveis caminhos para a solução do projeto começam a se esboçar. A partir daí, com algumas hipóteses levantadas, começamos a fazer estudos gráficos para entender quais caminhos podem levar a potenciais respostas. Algumas rodadas de conversa e de estudo depois, chegamos no que julgamos pertinente e apresentamos ao cliente.

Levando em conta esse dia a dia, existem ocasiões em que a solução de um projeto parece estar presente já em seu enunciado. Podemos nos seduzir por essa resposta aparentemente pronta e pular etapas importantes do processo, o que pode resultar numa solução frágil. Ao pularmos a travessia do processo, pode ser que tenhamos deixado de experimentar caminhos diferentes que conduziriam a outros destinos potencialmente mais interessantes. Ao deixarmos de fazer as perguntas iniciais, achando que já sabemos as respostas, obliteramos informações que podem parecer irrelevantes, mas que muitas vezes seriam as fagulhas para um rico pensamento a ser desenvolvido.

Quando pegamos um meio de transporte automotor para ir de um ponto a outro, é quase como se nos teletransportássemos para aquele destino. Ao chegar, os cheiros, a paisagem, a espessura do ar… tudo o que poderíamos ter apreendido aos poucos através dos sentidos durante o percurso, agora está diferente. Nossas antenas não tiveram tempo de ser calibradas para o ambiente novo: nós simplesmente pousamos ali. Ao fazer o mesmo trajeto caminhando, nós lentamente nos transformamos e percebemos aquele local de modo mais sutil e profundo. Nós nos moldamos gradualmente àquele destino. Ao deixar de lado o suor envolvido nas horas de pesquisa e estudo que um projeto de design exige, o resultado pode não ter musculatura suficiente e se parecer com muita coisa que já existe naquele contexto; isso não é um problema por si só, mas em muitos casos em que a solução serve para qualquer coisa, ela pode ter bem menos relevância. É como se eu tivesse pego um táxi para concluir o Audax: eu teria chegado ao destino, mas o resultado da experiência seria completamente diferente.

Seja num projeto de design, no preparo de um almoço, numa caminhada ou na elementar travessia que é a própria existência, quando nossa visão se concentra apenas em sua conclusão, sem a paciência necessária para atravessar as intempéries do evento, deixamos de fruir o processo e perdemos a oportunidade de atravessar essa circunstância sendo transformados por ela. Afinal, pé ante pé somos esculpidos pelo processo.

Designer do estúdio Daó