Outro dia fui com o Guilherme à Galeria Sete de Abril, onde ele foi buscar um filme fotográfico que havia deixado pra revelar. Enquanto ele era atendido, fiquei observando a vitrine de uma loja de relógios.

Havia centenas deles: à prova d’água, de ouro, com cronômetros (de diversos tipos), com pulseira de couro, de plástico, de R$ 50, de R$ 1.800; tinha até uma caixa temática da Copa do Mundo com 5 relógios de jogadores de futebol brasileiros que fizeram história em várias edições do campeonato — só me lembro do modelo do Dunga.

Comecei a reparar nos relógios de ponteiro e, ao observar os que traziam os números em algarismos romanos, pensei no quanto seria difícil me adaptar a ver as horas assim, já que, no início, precisaria fazer a “tradução” para os algarismos arábicos a todo momento. Lembro de ter pensado “não é natural ver números em algarismos romanos”. Rapidamente me dei conta de que mesmo os algarismos arábicos não são naturais para nenhum ser humano; nós olhamos para o número 4 e sabemos que ele indica que existem quatro itens daquilo que ele está representando — quatro horas, quatro batatas, quatro lados. Mas isso foi aprendido em algum momento de nossas vidas.

Isso é uma constatação bastante óbvia, mas que pode passar despercebida em meio à quantidade de conceitos que não precisamos parar pra refletir sobre, mas que através do constante uso julgamos como “naturais”.

Depois dessa observação, reparei nos relógios que não possuem número algum: as horas são representadas por 12 traços idênticos dispostos sobre uma superfície normalmente circular. Foi nesse momento que caiu a ficha: nós somos mediados por interfaces em muitas situações ao longo do dia. Imagine só o grau de abstração que o ser humano chega ao colocar no pulso uma máquina movida a bateria que gira dois pedacinhos de ferro que apontam para outros pedacinhos de ferro que, de acordo com sua posição, indicam a que distância e em que ângulo o planeta em que vivemos está em relação ao astro que nos fornece luz. Afinal, são todas essas informações que apreendemos rapidamente ao olhar para um relógio, e todos os compromissos que marcamos estão baseados nessa apreensão do que são essas frações subdivididas dos giros que a Terra dá ao redor de si própria todos os dias.

Nós não sentimos o calor do Sol tocando nossa pele, muito menos a força da gravidade nos mantendo fixos no chão ao saber que horas são. Mas o relógio nos proporciona uma forma de visualizar informações relevantes que condensam esses fenômenos naturais. Fiquei imaginando o que significaria arrancar e enfileirar os doze tracinhos de um desses relógios em outra superfície sem os ponteiros — certamente o significado dessa espécie de código de barras se desmancharia nesse exato momento.

Acredito que os ponteiros dos relógios daquela vitrine se movimentaram mais ou menos 20 graus enquanto eu olhava pra eles. O filme do Guilherme ficou pronto, e caminhamos de volta para o estúdio.

Designer do estúdio Daó

Designer do estúdio Daó