Se sua resposta for sim, nós precisamos conversar. Além de usar a bicicleta como principal meio de transporte, eu também dirijo um carro, e precisamos esclarecer o que são fatos e o que são opiniões, e quais as consequências de se misturar os dois.

2 fatos: nós, ciclistas, temos direito de ocupar faixas de rolamento (artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro), mesmo quando houver ciclovia (vou falar disso mais pra frente); nós, motoristas, devemos respeitar a distância de 1,5 metro ao ultrapassar ciclistas (infração média, artigo 201 do CTB).

Você pode não gostar desses fatos, você pode não gostar que ciclistas ocupem a mesma via que seu carro, e eu adoraria terminar essa frase falando “mas isso é problema seu”. Acontece que não é. Esse problema é nosso. Esse problema é das 297 pessoas que morreram esse ano no estado de São Paulo vítimas de assassinatos que normalmente são chamados de “acidentes fatais”.

Eu sei que você não quer matar a pessoa que está de bicicleta na sua frente (prefiro acreditar nisso). Você não tem vontade de passar o resto da vida carregando o peso desse assassinato. Mas quando você vai nos ultrapassar e passa perto da gente, você pode encostar no nosso guidão, e isso certamente vai fazer a gente cair. E essa queda pode ser fatal. Nem precisa encostar, basta o susto (principalmente se você passar buzinando ou acelerando no pé do nosso ouvido) pra fazer a gente se desequilibrar.

Algumas pessoas chamam isso de “fina educativa”. Ao meu ver, matar não é necessariamente uma forma de educar alguém.

Ah, e as ciclovias? Elas existem, elas auxiliam muita gente a se locomover, mas em várias ocasiões não dá pra usá-las: às vezes elas estão em obras, às vezes a gente precisa fazer uma conversão, às vezes ela termina em algum lugar inesperado e não dá pra retornarmos à via, às vezes simplesmente não rola usá-la porque nela a velocidade deve necessariamente ser menor e isso pode facilitar assaltos e outras violências. Eu já fui parado por um policial porque estava transitando na via e não na ciclovia, e ele não pôde fazer nada comigo (além de dar um sermão) porque isso realmente é nosso direito.

E nós pedalamos no meio da via porque se nós pedalarmos no cantinho, você vai achar que pode nos ultrapassar e um “acidente” pode acontecer. Então você vai ter que mudar de faixa, assim como faria ao ultrapassar outro veículo. É chato? É chato. ¯\_(ツ)_/¯ Mas engole o choro e deixa de ser essa pessoa mimada que acha que porque paga IPVA tem mais direito sobre a via (spoiler: você não tem).

A próxima vez que tiver uma pessoa de bicicleta na sua frente, pense nas consequências de assustá-la.

Nós continuaremos nas ruas. Eu, você, todas as outras pessoas que se locomovem de bicicleta, de carro, de caminhão, de ônibus. Só não vão continuar aquelas que o seu comportamento matar.

Se quiser aprender sobre o assunto, busque o que Marina Harkot já estudou e compartilhou. José Maria da Costa Júnior a matou com seu carro semana passada.

Designer do estúdio Daó

Designer do estúdio Daó